domingo, 3 de abril de 2011

 ...de passagem

Um viajante, passando pela casa de um monge Zen, perguntou admirado:

- Onde estão os teus móveis?
A que o monge respondeu, perguntando:
- E os teus?
- Mas eu... retrucou o viajante, estou só de passagem.
- Eu também – respondeu o monge. (conto Zen)
Embora de passagem, carregamos em nossas costas tantas coisas desnecessárias, supérfluas, talvez por desconhecer o que seja necessário ou não.
Disse  o mestre Jesus:
" Não vos inquieteis, portanto, com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã já terá as suas preocupações. Basta a cada dia o seu trabalho."
Então, já sobrecarregados das dificuldades diárias ainda criamos necessidades que só nos trazem mais cargas. Preciso daquela roupa, como se não vivesse sem ela. Preciso comprar aquele lançamento, seja de qualquer coisa, como se não tê-lo me faria excluído, cabisbaixo.
Assim é o senso comum, meros meios de expressão do que o povo, de uma forma geral pensa ou são estimulados a pensar. 
O senso comum alimenta , em nossa sociedade, a propaganda e a moda, sempre inventando o extraordinário, o novo e necessário. Gera a admiração, tornando os bens de consumo maravilhosos, miraculosos, mágicos.
A compulsão só é freiada pela crítica, ou senso crítico, que a ele se contrapõe. Trata-se de um filtro, uma malha que retém o que é válido e necessário e deixa passar o que não presta.
O senso crítico transforma aparentes certezas em incertezas, afirmações em perguntas, soluções em problemas.
O bom senso é objetivo, quantitativo, diferenciador.
Uma mochila pesada, cheia de excessivas bagagens, só torna a viagem cansativa e muitas vezes penosa. Melhor deixar o desnecessário e fazer a viagem carregando apenas os conhecimentos adquiridos pelos caminhos afora.       

domingo, 6 de setembro de 2009

Fé Racional

Por que não ouço mais Sua voz?
Sempre fui inconstante com relação a religião. Não admitia qualquer resposta e vivia cheia de perguntas.
Durante um tempo fui tomada de um sentimento quase irracional, mas havia esperança. Tudo foi se apagando quando me apresentaram a fé racional e Deus calou Sua voz.
Quantas vezes na minha reclusão clamava por ajuda, por milagres. Eu sentia uma brisa suave, um toque de amor e uma voz que me acalmava.
De repente tudo ruiu. Não era Deus que falava comigo, disseram. Milagres não existem, afirmavam.
A porta se fechou e hoje só o silêncio toca meus ouvidos. Ainda preciso de milagres, ainda preciso de Sua voz, no entanto, o topor da racionalidade diz que não há acaso, que estou cumprindo o que negociei do outro lado, que até mesmo os milagres bíblicos são fatos explicados, que eu sofro por merecer, se sou feliz é por merecer, que sou rica ou pobre é por merecer e nada vai mudar o meu destino. Essa vida é um teste.
Por que deixei tirarem Deus de mim? Preciso Dele, mas a oração flui fria e inconstante. É como se eu precisasse de tradutor para fazer entender o meu coração.
Queria poder acreditar novamente que a voz mansa ao meu ouvido é Sua.

domingo, 3 de maio de 2009

Retrofilia

Casa cheia, muito barulho e um irmão implicante. Para estudar, o que não era comum, subia no pé de manga. Era um sossego, a menina-macaco, embora ninguém me considerasse assim, pois não passava de uma pirralha chorona e manhosa. Típica caçula.
Tinha medo do escuro e via fantasmas. Um deles era o filho da vizinha que costumava passar pela janela do meu quarto e fazer cenas de horror para meu desespero.
Gostava de brincar sozinha, atrás da cama de minha mãe. Eu e minhas parcas bonecas. Adorava aquele lugar, adorava a solidão. Amava a chuva e tempestades.
Estranho me olhar no espelho do passado e tentar me conhecer no presente.

Pipoca Doce

Fui uma criança quietinha, sem mimos e com poucos sonhos. No recreio da escola, sentava à porta da secretaria e ali ficava em silêncio, vendo o tempo passar. Não consigo me lembrar no que pensava, ou porque agia assim, no entanto, minha melancolia teve méritos diante de minha mãe. Afinal, era comportada e isso cobria minhas péssimas notas, principalmente em matemática. Sofria horrores para atingir a média, conseguia mesmo sem aprender.
Foram alguns anos naquela escola e algumas coisas lembro bem. Recordo que tinha vontade de ter dinheiro para comprar lanches, principalmente a pipoca de doce da venda do Zé Gomes.
Certo dia, entrei no supermercado e vi a delícia dos meus desejos de infância, levei dois pacotes pequenos para casa e dei um para meu filho, devorando o outro. Não satisfeita, comprei um ainda maior e em cada grão via a imagem da menina feia e com fome. Era gulosa, na verdade. Tinha até o apelido de "gusula", aquele bicho feio que devorava tudo, na Vila Séssamo.
Não pensem que passávamos necessidades, apenas não tinhámos para o supérfluo.
Mas aquela pipoca não era supérflua, era meu desejo, um tesouro que às vezes conseguia comprar quando saqueava as moedas dos irmãos. Que feio ter que confessar isso. rs
Bom mesmo foi o dia em que ganhei um pedaço de chocolate. Fiz um embrulho e resolvi levar para escola, afinal aquela gostosura causaria inveja a muitos. Pasmem! Peguei carona com um carroceiro e o embrulho se perdeu entre os solavancos. Meu desespero e frustação foram parar novamente na porta da secretaria.
Hoje posso comprar pipocas, mas não posso considerá-las meu objeto de desejo. Muito se passou daquele tempo e outras delícias povoam minha mente. Uma delas é poder resgatar a doçura da infância que tantos erros morais foram apagando.
Seria ótimo se todos os desejos fossem pipocas doce, talvéz assim eu sonhasse mais .

domingo, 12 de abril de 2009

Amai vossos inimigos

Posso me enfeitar, colorir a face, as unhas e os cabelos. Posso encantar com minha imagem. No entanto, quando se tira o véu e os adereços, são meus olhos que aparecem no espelho, sem maquiagem, olhando no fundo de minha alma e desnudando a minha verdade.
Muitas vezes, apresentando o inimigo: EU.
Percebi o quanto é difícil amar a mim mesma, embora seja necessário para que eu possa me harmonizar com os demais.
Cada dia uma lição e se treino a tolerância e paciência com meus irmãos, faço o mesmo comigo.
E vou me amando....